Em meio às teias virtuais que nos envolvem, cada vez mais os comportamentos humanos se tornam padronizados... Não só por aquela velha máxima, minuciosamente elaborada pelos frankfurtianos, da indústria cultural de massa (ou missa?) e do papel alienante (quiçá embriagante) da mídia. As análises de Adorno e Horkheimer, embora brilhantes, se baseavam apenas no embrião daquele monstro social que se desenvolveria nos séculos XX e XXI. Eles não puderam assistir às seguidas revoluções tecno-sociais causadas por celulares, internet, redes sociais, tablets. Nem mesmo o visionário George Orwell poderia sonhar com tão brilhantes ferramentas de comunicação e disseminação de idéias – para o bem e para o mal. Mas este já é outro assunto. Voltemos à padronização da mediocridade.
Em meio à nuvem de informações, digitais, impressas, visuais, auditivas e sensitivas, cada vez menos os seres humanos se individualizam. Talvez por ficarem perdidos nesta maré virtual, navegando à deriva entre as nuvens societárias e as nuvens digitais. Acabam por dissolverem-se em ambas e não se integrarem em nenhuma... Plugam-se nas redes sociais virtuais, que passam a ter estatuto de realidade. E a realidade passa a ter o estatuto de virtualidade. Não se trata de uma mera inversão, mas da suplantação dos limites entre real e virtual. Até mesmo quando chegam em um bar, ambiente de sociabilidade, os jovens fazem um check-in virtual e entram em contato virtual com outros que fizeram o mesmo procedimento. Mas não ousam trocar olhares. Olhares são muito ameaçadores e perigosos. Somente via rede, aí sim piscam, compartilham, podem até mesmo vir a se cutucarem...
Nessa rede em que as fronteiras entre o real e o virtual parecem se extinguir, cada vez menos o extraordinário aparece... As notícias, as piadas, os comportamentos, até mesmo as loucuras passam a ser produzidas em série, dentro do padrão virtual. A capacidade de se diferenciar, a ousadia de pensar, ainda mais a de pensar diferente, a hybris de ultrapassar normas e condutas, parece ter sido engessada... Somente no grupo de amigos virturreais os indivíduos se sentem seguros.
Evoquemos o célebre Erasmo de Roterdam, para fugirmos da mediocridade massiva que pode ser uma funesta conseqüência da nossa realidade virtual. Ode à insensatez, virtude extraordinária. Ode à ousadia. Que sentido tem um mundo de comportamentos previsíveis, de emoções controladas, de possibilidades limitadas. Sentir é um ato, pensar é um fato, escreveu Clarice Lispector. E que fato transgressor. Viva o pensamento insensato!