Outro dia alguém disse que leu um depoimento que a tornou mais humana... Outra pessoa estava emocionada, ao mesmo tempo que excitada com o mesmo texto, não conseguia conter suas emoções no telefone com o autor. Este, pensava e dizia: que bom que as palavras ainda têm o poder de emocionar as pessoas. Enquanto isto ainda ocorrer, nem tudo está perdido. Estes sentimentos, estas emoções são disparados quando a palavra causa identificação, seja em um sentido de reconhecimento de si através delas, seja no sentido de reconhecimento construtivo da alteridade que representam. Em ambos os sentidos, ou qualquer outro que se imagine, aparece um poder subversivo da palavra: ela pode nos tirar o chão, nos conduzir ao outro, ou ainda mesmo nos dar um chão. A palavra bem colocada, essencialmente é emocionante. Daí nasce a poesia. Nem só razão na leitura dos textos, mas boa dose de coração-leitor. Mas esta palavra que além do racional não se aprende na escola, nem na universidade. Nem nas gramáticas, nem nos cursos-livres, nem em vídeo-aulas, nem em nenhum outro manual. E neste ponto, voltemos a pensar na realidade digital-virtual em que nos inserimos, buscando a ressurreição desta palavra,em meio a este (i)mundo.
No que venho chamando de sociedade virturreal (as fronteiras não são mais palpáveis ou relevantes entre real e virtual) os sentimentos têm se tornado cada vez mais brutos ou brutais. Os relacionamentos, de todas as orientações ou mesmo os desorientados, são fugazes, momentâneos, objetais. O outro é a satisfação do prazer do EU, enquanto ainda satisfaz bem, quando não mais: que venha o próximo. Nesta lógica se despedaçam as capacidades da admiração, do espanto, da surpresa, de sensações corpóreas (frio na barriga), de observação de pequenos detalhes do outro (os apaixonados reparavam até mesmo um cílio que caía do amado). Bom, além da cultura consumista, aliada ao culto de micaretas, funks e similiares, a aceleração do tempo também é um elemento catalisador deste processo.
O poeta Vinicius de Moraes escreveu certa vez: “ando onde há espaço/meu tempo é quando”. Hoje, a paráfrase seria a seguinte :”ando onde não há espaço/ meu tempo é o agora”. Esta cultura do imediatismo, o ritmo acelerado devido à urgência do trabalho, o culto do carpe diem mal compreendido contribui para que as relações tenham se embrutecido, e as capacidades de pensar, admirar, contemplar, poetizar estejam hibernadas na maioria dos seres, humanos e inumanos.
A palavra que emociona, que desperta os sentimentos, vai na contramão de tudo o que é cultivado na sociedade virturreal. Ela choca, expõe o que tenta-se esconder, e seu poder revolucionário está neste escancarar e suspender o instante. Lemos. Respiramos. Uma lágrima tentata escorrer. Pensamos. Nos emocionamos. Pronto. Já não somos os mesmos. E a palavra cumpriu sua melhor potencialidade. A palavra nas entre-linhas, a palavra que emociona, com sua musicalidade interior. Palavra encantada!
Você a cada dia domina mais esse encantamento das palavras! Parabéns!
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