sábado, 12 de novembro de 2011

O reino das necessidades desnecessárias

O paradoxo é proposital. Mais do que um paradoxo é uma antítese. Uma provocação. Nossos tempos são os tempos da criação de desejos e necessidades, cada vez mais distantes dos nossos próprios anseios e sonhos. Desejos artificiais, felicidades artificiais e temporárias. E logo precisamos, desejamos, necessitamos, temos que adquirir algo novo que inebriará nossos desejos e saciará nossa felicidade passageira. Não são os tempos vislumbrados por Baudelaire em seus “Paraísos Artificiais”. Criar um paraíso, através da imaginação aguçada, e ter consciencia da artificialidade deste paraíso, ainda assim aproveitar todas suas potencialidades, é bem diferente de cair no reino das necessidades mercadológicas...É o reino das linguagens marketeiras e midiáticas... É a competição liberal elevada à sua mais cruel potência... A evolução tecnológica, e aqui chegamos no plano da sociedade virturreal, tem esta terrível faceta... Regida pela lógica do lucro, cria, cada vez mais necessidades, e tenta manipular desejos, lobotomizar consciências, e revigora um termo já fora de moda, que volta à tona: ideologiza o inconsciente humano...

Não que isto seja uma regra, ou lei geral que regula o funcionamento da sociedade. Não. Sou contra generalizações pseudo-científicas. Trata-se apenas de uma observação, ou um devaneio de um observador desinteressado, incrustado no seio do processo tecno-mercadológico. Deveras pessimista o olhar, hão de bradar os otimistas, profetas das benesses da tecnologia aliada ao mercado. Não se trata disso. A lógica aqui é da boa e velha dialética. Sem um contraponto, a harmonia não se concretiza. E não há como negar que para sua sobrevivência a industria técno (lógica, crática, econômica) precisa de uma expansão ilimitada e de criar desejos. Na linguagem do Marketing, trata-se de identificar necessidades ainda não vislumbradas pelo cliente, criando demandas, antecipando soluções. Mera baboseira. Bullshit, diriam os ingleses, sem termo que expresse melhor. Poder-se-ia traduzir a lógica acima por: manipular os desejos inconscientes, suscitar a necessidade de algo que nunca dantes foi necessário, antever o lucro com estas necessidades num futuro próximo. Lucro, acúmulo, mais lucro. Todas as necessidades que vivemos, além das básicas, estão dentro deste círculo vicioso. E achamos sempre um Iqualquercoisa que precisamos ter, um Celmerdaqualquer que é de última geração Tabletidiota que necessitamos comprar. Aceitamos, sem perceper esta linguagem sedutora, as pessoas bonitas dos comerciais, a tendência da ultima estação, a musica que todo mundo houve. What the fuck, it´s better to be myself than anybody else.

Não quero negar algumas possíveis benesses do mundo virtual. Mas também não quero que as coisas percam sua aura, como ensinou Water Benjamin, muito menos que o modus poeisis de vida se torne obsoleto. E enquanto houver um brado, ainda que solitário que não naturaliza condições historicamente passageiras, a utopia de um futuro diferente, tecno-social, estará em aberto...

2 comentários:

  1. Bravo, grande Bill! E eis que abro a gaveta da escrivaninha e me deparo com nada menos que o Paraísos do Baudelaire, uma edição sua que você havia me emprestado e que eu nunca devolvi...

    Fica um grande abraço e um parabéns pelo trabalho que cê tá fazendo neste blog!

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  2. Valeu Lucas...

    O "Paraísos Artificiais" está em boas mãos.. Não se preocupe...

    Aqui é o espaço do caos, da expansão das ideias, sem limites!

    Valeu,

    abraços

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